9.12.13

Perdi a conta




Perdi a conta.
Todas as vezes...

De quantas tardes,
tua sandália ficou na porta.
Tem torta de chocolate, e agora?!
Lá fora até o cachorro late,
em Latim.

Perdi a conta
das vezes que te vi assim:
Nos medos do homem,
a coragem do moleque.

Kurosawa pintou sonhos
na tela. Na sala, tua arte.
Um presente no passado,
mil certezas no futuro.

Perdi a conta
das horas tristes,
dos dias felizes.
Sempre aqui, sempre perto.

Só não perdi o endereço
Do teu abraço,
do teu braço,
meu irmão.

Perdi a conta da Lealdade.
Da amizade. Cumplicidade.

Perdi a conta
do quanto te amo...
Mas por favor, não conta!

Não conta pra ninguém,
porque desfazer de você
é minha maior felicidade.
Maldade de irmã,
senhora-dona-da-verdade.

Que se destrambelha,
velha, quer ser moleca
pra brincar de bem-querer!

Perdi a conta
do quanto nos devemos...
Não havia como pagar
a alegria de te viver.
De te ver viver.



***





28.11.13

Lulu. Um aplicativo para mulheres?



"Quando nascemos
fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de 9 às 6.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo
em cima de vocês"

Geração Coca-Cola
Legião Urbana


É uma pena que muitas pessoas desta geração não reflitam mais sobre nada, engulam tudo que é importado, principalmente o que é norte-americano. O aplicativo Lulu, tão defendido pelas garotas é mais uma dessas porcarias americanas que tem como única intenção VENDER.

É só um produto, mais um...


Um produtor opressor, que trata o ser humano como objeto, passível de ser classificado, pontuado, definido por palavras de baixo calão. As usuárias do aplicativo para celular referem-se aos homens em aspectos sexuais e comportamentais da forma mais vil, comparada às práticas que o Patriarcado vem impondo à nós desde sempre, tudo aquilo que sempre questionamos, que sempre nos ofendeu, hoje é usado contra os homens. Será mesmo que esta é uma ferramenta útil na luta contra a violência de gênero? Me pergunto em quê um aplicativo como este pode contribuir com a nossa vida. E, se é inútil, porque continuar a utilizá-lo?! A geração que não reflete continua caminhando em direção o abismo da ignorância e apatia...


As mulheres brasileiras precisam sim de um aplicativo só pra elas, um que seja sigiloso e seguro, com intuito de denúncia onde nós possamos alertar as outras mulheres sobre os muitos estupradores e espancadores que estão entre nós, disfarçados de bons garotos.

Gatas, falar de como o boy é na cama não nos faz seres humanos melhores ou mais fortes. Somos muitos mais que isso. A tecnologia deveria ser uma ferramenta para que nós ao menos tentássemos compensar os últimos 5.000 anos de Patriarcado, de dominação, exploração e abuso. Nós só a utilizamos como lazer. Sempre achei que o lazer era o descanso de quem produz, nesse caso o lazer é apenas mais do mesmo, é ócio improdutivo, hoje a inutilidade humana chegou à níveis surpreendentes.

Precisamos, com urgência de Valores, de Amor e de uma luta COERENTE pela Igualdade e não de mais um produto que só vai fazer de nós marionetes do mercado e intensificar a "guerra dos sexos" que dá tanto lucro ao mercado.

Atenção mulheres, cuidado para não continuarem se entregando à opressão por vontade própria, ou seria apenas alienação mesmo?

Pobre Luluzinha, virou referência para algo tão sem sentido, logo ela...

______________________

[Sobre o aplicativo: O aplicativo mais quente e que é sensação nos EUA chega ao Brasil! Faça download do Lulu em português para avaliar os caras que você conhece. Mais de um milhão de garotas nos EUA usam o Lulu para fazerem decisões mais inteligentes sobre garotos.

Tudo que as garotas fazem no Lulu é privado e anônimo. Sua atividade no Lulu jamais irá parar no mural de alguém no Facebook ou nas mãos do cara que você está a fim.

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7.11.13

FelizIdade




Quero um relógio.

Mas pouco importam as horas...
Quero ser Senhora do meu Tempo
ver passar segundos à contento
no alento da certeza
que a Fé não enganou.

Lá fora, no Jardim, a Amora

é adornada como Iroko.
Meu tempo já não vai embora...
Quero, de hora em hora,
poder vê-lo passar.

No braço, quero o abraço do orixá.

No compasso dos ponteiros
ver o mundo inteiro se afastar
pra brincar de ser criança
e na dança de ciranda, cirandar.

O Tempo, esse Senhor,

trouxe o Poeta Amado,
desejado dia a dia
na melancolia do passado.

Ando na vontade infinita

da bendita felicidade.
Noutros tempos andei
pelas ruas da cidade,
sem saber das horas
nem entender essa demora
da sonhada Liberdade.

Hoje, acabou bem na hora

e ontem foi um sonho ruim.
É do amanhã que Tempo fala:
Da sala cheirando à café,
da solidão que chegou ao fim.















27.9.13

De volta.



Se me desloco
a direção

é sempre a mesma:

a tua.

São viagens. 
Um corpo 
de encontro 
ao outro. 

Se espero, 
tua rota gira. 

São passagens. 
Um sonho 
completando 
o outro. 

De volta 
a falta que faz 
tua pele nua. 

Idas e vindas, 
minhas e tuas. 

São muitas viagens...
Caleidoscópio vivo,
no espelho
dos teus olhos.




26.9.13

Somos todas Clandestinas


Dia desses ouvi um o julgamento pessoal de que a morte da genitora é preferível à do feto. Fiquei chocada, claro! Cada dia entendo menos essa sociedade em que vivemos, tão materialista e vivendo sempre em função do capital, do lucro.

Há relatos históricos de que, se uma indígena brasileira estivesse em situação de perigo ou iminência de guerras entre tribos, elas abortavam. Elas guerreiam junto com toda a tribo e em outro momento engravidam novamente. Me parece muito mais lógico.

O feto só é mais importante do que a genitora na nossa sociedade, cristã e capitalista, na qual as mulheres não tem direitos de escolha sobre seus próprios corpos e que o sistema prefere a mão-de-obra mais jovem do que a mais velha. Só para registro: Nós mulheres, não somos fábricas de operários para o Sistema e nem muito menos posse ou produto para que a sociedade escolha o que faremos com nossas vidas!

Ninguém tem o direito de achar ou não-achar nada quando o assunto é o corpo da outra pessoa. As mulheres são livres, sempre fizeram aborto e vão continuar fazendo queira a sociedade brasileira assumir isso ou não. A questão não é concordar ou não com o aborto, a questão é que todos os anos, centenas de mulheres morrem ao fazer aborto ilegal.

Qual a nossa posição sobre isso? As mulheres ricas vão às clínicas particulares e fica tudo bem. Mas e as pobres? Não é dever do Estado, à quem essa mulher pagou impostos a vida inteira, atendê-la no pior momento de sua vida?

De Livre à Clandestina, no intervalo de um ciclo menstrual, 28 dias e sua vida estará mudada para sempre... Alguém sabe o que é isso? Alguém sabe o que é ser ridicularizada publicamente APENAS porque escolheu fazer o que bem entender com o próprio corpo, sem se preocupar com o que diz a Sociedade? Só uma mulher sabe o tamanho da pressão que sofre, inclusive de outras mulheres.

O aborto, para muitas dessas meninas, algumas menores, pretas e pobres, não é escolha, é consequência. Consequência das pressões culturais, econômicas e sociais que são impostas diariamente às mulheres.

Para muitas de nós, a gravidez, pode não representar "uma bênção", "um presente", apesar da maravilha que é poder gerar um filho, em muitos casos essa gravidez vai representar muito mais sofrimento. Sem a menor intenção de estimular as mulheres ao aborto como método anti-concepcional, ao contrário do que se pensa, o aborto é algo que as mulheres NÃO QUEREM, mas que, mesmo assim, muitas vezes PRECISA ser feito. Não cabe à nós o julgamento sobre se deve ou ou não ser feito, elas tem feito independente do que você ou eu pensamos sobre isso e precisam ser atendidas pelo SUS, é uma questão de saúde pública, não podemos deixar que as mulheres continuem morrendo por tentar interromper uma gravidez indesejada.

Todos os dias, mulheres casadas vêem sair da boca de seus "maridos" que "não é o momento" de ter outro filho. Diariamente mulheres casadas são levadas ao aborto clandestino porque aquele que deveria ser seu "companheiro" é covarde e prefere que suas mulheres vão para a mão de açougueiros em clínicas clandestinas. Até quando?


Deixemos de hipocrisia. Nelson Rodrigues, que não gostava muito de feministas, disse certa vez que "Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém". Entender essa moral pitoresca que impregna nossa sociedade é um desafio.

As mulheres que abortam são suas amigas, suas filhas, suas irmãs, namoradas, esposas e, pasmem, até suas mães. Essas mulheres têm se submetido à procedimentos caseiros, clandestinos. São nossas mulheres que estão morrendo...

O aborto, apesar de crime, é praticado em todas as camadas sociais, inclusive em comunidades religiosas. Mas quem é que não sabe disso, não é mesmo?!

Todos sabem. Muitos se omitem.

Enquanto isso as mulheres morrem.

Somos todas Clandestinas.
























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Mais informações:

Toda mulher em processo de abortamento, inseguro ou espontâneo, terá direito a acolhimento e tratamento com dignidade no Sistema Único de Saúde (SUS). É o que garante a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, criada pelo Ministério da Saúde em 2004. A iniciativa teve como base estatísticas que revelam as complicações decorrentes de abortos inseguros como a quarta causa de morte materna no País. 

O código penal brasileiro só permite a realização de abortos que tratam de riscos de morte para a mulher ou de gravidez resultante de estupro. A constituição federal também garante a saúde como um direito de todo cidadão. "Em respeito à constituição brasileira, a função do SUS é atender toda a população em situação de risco", conclui Regina Viola. "A elaboração da norma é uma das ações estratégicas do Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna, lançado no passado, que contou com a adesão da sociedade civil e das secretarias de saúde", completa. 

Números - Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) metade das gestações é indesejada e uma a cada nove mulheres recorre ao aborto. No Brasil, os cálculos mostram que o índice de abortamento é de 31%. Ou seja, ocorrem aproximadamente 1,44 milhão de abortos espontâneos e inseguros com taxa de 3,7 para cada 100 mulheres. A gravidade da situação do abortamento também se reflete no SUS. Só em 2004, 243.988 mulheres foram internadas para fazer curetagem pós-aborto. 

Fonte: Portal do Ministério da Saúde do Governo Federal

















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História do Aborto

29/07/2010
A questão do aborto é muitas vezes consideradas uma questão moral, uma questão apenas da vida do feto, mas tem várias outras questões históricas, políticas e sociais que também precisam de atenção numa consideração do assunto. O aborto nem sempre era proibido como hoje em dia, na realidade o aborto era aceito nas sociedades antigas e pré - industriais no mundo inteiro, incluindo o mundo cristão. Também nas sociedades indígenas o aborto era conhecido e usado freqüentemente; num estudo de 400 sociedades "primitivas" só tinha uma que desconhecia o aborto, e até hoje o uso de ervas e comum na nossa sociedade. Nas sociedades humanas primitivas, as mulheres usavam esse conhecimento de ervas, tanto anticoncepcionais quanto abortivas para controlar o números de filhos que elas tinha. A mulher era livre e tinha poder econômico e político dentro do clã e geralmente controlava a agricultura e a medicina. Mas enquanto a prática de aborto era livre dentro das sociedades privativas, com o começo da sociedade privada e a formação do estado, as mulheres foram perdendo suas independência e seus controles sobre seus próprios corpos.


As atitudes sobre o aborto sempre tinha a ver com as condições econômicas do lugar, quando as mulheres tornaram "propriedades" dos seus maridos. O feto também foi tratado como propriedade. Pôr exemplo, na lei hebraica eles não falam de aborto provocado pela mulher, mas condenam o aborto provocado pela violência, não como uma morte, mas como "um dano econômico contra o marido da mulher". Do mesmo modo, tanto na Grécia quanto na Roma antiga, o feto era considerado parte do corpo da mulher, e então parte da propriedade do homem. Geralmente o aborto era permitido (com a permissão do marido) porque era necessário para o controle de natalidade; os pensadores Hipócrates, Sócrates e Platão apoiavam e até davam conselho sobre métodos. Mas em alguns lugares na Grécia eles proibiam o aborto, como pôr exemplo em Macedônia  porque queriam criar um maior números de atletas e guerrilheiros.

Assim os estados emergentes proibiam e permitiam o aborto dependendo das necessidades deles, usando os corpos das mulheres como instrumento de produção.

A crendice da época era que o feto recebia alma, ou foi "animado" depois de 60 dias, e que até esse ponto era aceitável fazer aborto. Os cristãos pegaram essa mesma ideia e ficaram com ela até 1588 quando algumas correntes da igreja começaram a dizer que todos os abortos eram crimes. Mas essa mudança de ideologia não apenas moral; durante essa época a igreja e o estado estavam uma guerra contra as mulheres pôr razões políticas e a posição contra o aborto, era apenas mais uma maneira de tirar o poder das mulheres. Alicia non Grata descreve as condições da época; "A maioria das pessoas tem ouvido falar das caças as bruxas, da inquisição e outros crimes terríveis cometidos em nome de "Deus", mas não fazem ideia de que a caça as bruxas dos séculos 14 e 17 não vinha de "um populacho louco", envenenamento de ergot ou comportamentos extremos levados pela superstição ou pelo medo, mas planos bem executados de extermínio com o objetivo de apagar o poder das mulheres e esmagar as revoltas dos camponeses... A caça as bruxas era uma campanha bem organizada, iniciada, financiada e executada pelo estado e pela igreja. As caças mais virulenta era associadas com períodos de motins sociais, agitação nas raízes do feudalismo, revolta de massa e conspirações camponeses (as), o começo do capitalismo. Também tem evidencia que em algumas áreas a pratica de "bruxaria" representava uma rebelião dirigida pelas mulheres. Nessa época as mulheres ainda tinha poder consideráveis, elas eram as médicas do povo, elas tinham o direito de fazer leis (na Inglaterra) e elas se encontravam em grupos para se discutir conhecimento das ervas, notícias e atividades políticas.

O Estado e a igreja entenderam que essa autonomia e poder eram controlar o povo.

Eles então criaram a desculpa de heresia e mataram milhares de mulheres (das cercas de 100.000 pessoas massacradas na caça as bruxas 85% delas eram mulheres).

Mas apesar de toda essa ideologia anti-mulher, a posição da igreja contra o aborto não se tornou oficial até 1869, quando o papa Pio IV declarou todos os abortos como assassinatos, e a igreja católica começou sua luta contra o aborto. A data 1869 coincide com o final e oficialização da revolução científica que era outro movimento querendo tirar conhecimento e poder das mãos das curandeiras e parteiras para concentrariam dentro do estabelecimento médico. Não é surpreendente que o estado se posicionou contra o aborto ao mesmo tempo que a igreja.

Nesse período o estabelecimento médico falava que proibir o aborto era necessário para "proteger" as mulheres, porque o aborto era procedimento perigoso...

Mas as razões eram reais eram todas políticas. A revolução industrial começou nos EUA e a Inglaterra estava iniciando a exploração da América Latina e precisavam de mais mão de obra. Nos EUA também o governo temia "suicídio da raça branca " pôr causa que a natalidade estava caindo e o presidente T. Roosevelt falou "temos que manter a pureza da raça, precisamos de mais nascimento de brancos nativos".

Outra razão importante para a proibição do aborto era que o capitalismo industrial crescente precisava de mulher para trabalhar em casa sem renda, ou com extrema baixa renda fora de casa e para produzir a próxima geração. Sem aborto legalizado foi difícil para as mulheres evitarem essas intenções.

Mas as leis contra o aborto não eliminariam a necessidade nem a prática do aborto e no começo do século vinte, alguns lugares começaram a permitir o aborto de novo, pôr causa dos protestos e da resistência das mulheres. Mas essa liberdade não durou muito tempo e pôr causa da grande perda de vidas durante a Primeira Guerra Mundial, a Europa ocidental voltou para a política natalística (contra o aborto), e nos proibindo anticoncepcionais e punindo o aborto com pena de morte.

Nos anos 60 e 70 muitos países europeus e "comunistas" conseguiram o direito ao aborto através de movimentos populares ou da necessidade daquele país Ter mulheres trabalhando fora de casa, mais a maioria dos países do mundo não dão esse direito; o direito ao aborto acessível e seguro, os fatos mostram que as mulheres fazem aborto, como sempre faziam, com ou sem legalização.

A posição contra o aborto mostra mais o fato de ser Ter controle sobre as mulheres do que um interesse na vida, todos os massacres, guerras, pena de morte e assassinatos cometidos pela policia não chamam tanta atenção quanto ao aborto.

Os anti-abortistas falam tanto de proteger a vida, mas não consideram as vidas de milhares de mulheres que morrem a cada ano com complicações na assistência ao aborto, elas sendo pessoas que realmente tem vidas já desenvolvidas vezes tem dependentes que podiam ser deixados órfãos (a grande maioria das mulheres que fazem abortos no Brasil já tem filhos). A pessoa que realmente tem um interesse na vida, também deve considerar as vidas dos menores abandonados, aqueles que não foram desejados ou vieram para mães sem condições de cuidar deles. Quem deseja uma vida de fome, frio e se sobreviver até adulto, de criminalidade. Provavelmente as mesmas que aplaudiram o massacre no Carandiru e que tem uma posição contra o aborto.

Não é melhor ter filhos só quando podemos lhes dar amor e alimentação? Obviamente, a questão da proibição do aborto não é a vida, como vemos na história do aborto, e sim uma questão política de controle sobre as mulheres das classes baixas. O estado usa alas como maquinas de reprodução dependendo de sua s necessidades; pois vemos que as mulheres ricas têm acesso ao aborto seguro (os ricos nunca são submetidos as mesmas repressões que os pobres sofrem). A legalização do aborto deve ser acompanhado com campanhas de informações sobre os anticoncepcionais, sendo esses distribuídos de graça, pois nosso objetivo não é aumentar o número de abortos que podem causar complicações e não necessariamente muito agradáveis para a mulher.

Texto extraído do zine PANDORA














25.9.13

Uma Arte

"Uma arte"
Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

24.9.13

Aborto Legal

Eu não consigo compreender o julgamento pessoal de que a morte da genitora é preferível à do feto. A genitora é mais importante do que o feto, não é natural que a gestante dê a vida por algo ou alguém que ainda não nasceu. Indígenas brasileiras abortavam se estivesse em situação de perigo ou iminência de guerras entre tribos, elas guerreiam junto com toda a tribo e em outro momento engravidam novamente.

O Feto só é mais importante do que a genitora na nossa sociedade, cristã e capitalista, na qual as mulheres não tem direitos de escolha sobre seus próprios corpos e que o sistema prefere a mão-de-obra mais jovem do que a mais velha. Nós mulheres, não somos fábricas de operários para o sistema e nem muito menos posse ou produto para que a sociedade escolha o que faremos com nossas vidas.

Ninguém tem o direito de achar ou não-achar nada quando o assunto é o corpo do outro. As mulheres são livres, sempre fizeram aborto e vão continuar fazendo queira a sociedade brasileira assumir isso ou não. O questão não é concordar ou não com o aborto, a questão é que todos os anos, centenas de mulheres morrem ao fazer aborto ilegal.

Qual a nossa posição sobre isso? As mulheres ricas vão às clínicas particulares e fica tudo bem e as pobres? Não é dever do Estado, à quem essa mulher pagou impostos a vida inteira, atendê-la no pior momento de sua vida?

Eu orei por você...


"One Love!
One Heart!
What about?
Let's get together and feel all right
Give thanks and praise to the Lord
and I will feel all right;
Let's get together
and feel all right"


Bob Marley



O que é mesmo que a gente pode saber sobre o Amor, o que é mesmo que a gente pode especular sobre algo tão desconhecido?

Nunca experimentei o Amor. Digo isso porque para mim Amor é um sentimento minimamente correspondido, esses amores não-correspondidos são invenções nas quais a gente se apega por conta da carência, se apega feito um cachorro de rua se agarra à um osso velho.

Amor é prática, é vivência.

Amor é construído por mais de um. Não me refiro à esse esse amor idealizado, romântico, cheio de mentiras e falsidades mas com aquele Amor , o de verdade, o que mesmo nos conhecendo na intimidade continuam nos querendo por perto.

Só ama quem conhece. Não há Amor quando você sequer sabe com quem está se relacionando. A sinceridade é o princípio básico do Amor.

Não é justo não saber quem está ao seu lado todos os dias, isso tira de você o direito de escolha. Quando vivemos uma ilusão o que pode nos mostrar o caminho que aquela relação irá tomar? Continuamos normalmente com nossos planos sem saber que em poucos segundos tudo irá desabar sobre nossas cabeças. É injusto demais.

Já vi grandes amores chegarem ao fim, amores de longa data e amores recentes, mas todos intensos e cheios de entrega, força e beleza. Cada um em cada canto viveu essas sensações de maneira inteiramente diferente, cada  um sofreu à seu modo, mas todos viram em mim alguém para desabafar... O que talvez não soubessem é que minhas emoções parecem uma esponja. Absorvo o que vejo e o que vivo de outras e com outras pessoas, logo, sem querer sinto um pouco do que elas estão sentindo também. E sofro.

Compaixão não é um dom, é um fardo. Sentir a dor do outro é extremamente cruel, não há nenhuma vantagem nisso, só dor e mais dor. Se é que se pode dizer que há algo de bom é que percebo que a dor de quem amamos diminui consideravelmente quando elas compartilham, quando falam.

Eu não falava e sofri muito por conta disso. Precisamos falar.
Às vezes, precisamos ouvir.
Quando me despeço e fecho o portão, vem tudo de uma vez, posso rever e ouvir cada um, em cada canto, agarrado em sua dor, tudo que ouvi e senti durante o dia inteiro volta, como uma enorme onda, destruindo tudo por onde passa.

Quis ajudar e não pude.

Apenas orei.
Por cada uma e por cada um...

__________________________

Orei por você e pedi que sua dor diminuísse, pedi que eu tivesse força o suficiente para te ajudar, orei para que você possa aceitar as coisas como são, possa reagir e volte à ser feliz!

Orei por você e pedi que você se encontrasse, que pudesse olhar à volta e colocar os pés nos chão.

Orei por você e agradeci à força que vi nos teus olhos, pedi que você tivesse, pela primeira vez, a coragem necessária para se reconstruir e, finalmente descobrir quem é você.

Orei por você e pedi que você pudesse ser feliz sem tanta hipocrisia, que você conseguisse experimentar a sinceridade ao menos uma vez.

Orei por você e pedi que você esquecesse o que não te serve mais...

Por fim, orei pelo homem que amo... não pedi nada. Orei e contei (às paredes?) o quanto ele me faz feliz.

Aqui dentro eu achava que sabia o que cada um precisava, imagina! Eu nem sequer sei do que EU preciso. Orei por mim também e pedi paciência e sabedoria. Anda faltando...

__________________________

Amor é um pouco disso também, sabe? Amor é esse querer bem, esse querer nada, amor é esse conhecer e admirar no todo, é esse respeito mesmo ciente dos defeitos. Amor é a aceitação de outra pessoa e o desejo de tê-la por perto, mais perto. Dentro. 

Amor é a compaixão na prática, é sentir a outra pessoa mesmo quando ela não está lá... Amar é.. 

Amar não tem manual ou explicação compreensível, não está em cartilhas ou na "multidão de conselhos", não responde a conjecturas. O Amor é naturalmente rebelde, é dono de si e independente das vontades humanas, o amor é força criadora, mola que move o mundo...

No fim, amar não é nada disso e é tudo isso, amor é verbo, ação que não se explica, apenas se sente. Que se danem as muitas verdades, que se danem as definições, explicações, motivos e conceitos. Amar é tudo e nada. Parafraseando Mário Quintana, O Amor tem esse gosto de nunca e de sempre.
____________________

Não sei se há uma divindade que ouça minhas preces e as atenda, pouco importa! O que importa é verbalizar o sentimento e apenas torcer pra ver quem você ama feliz, de verdade!

Eu orei por vocês...
Foi tudo o que pude fazer.
Agradeço, voltei à orar.

____________________

Jah bless.




8.8.13

O Caso do Ocaso




Se, por acaso,
o acaso me encontrar...

Nesse caso,
posso até pensar.


O caso é
que não quero casar.


Só caso
se for no acaso.


Assim eu caso!
Mas só se for no ocaso.




1.8.13

Solitude




"É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade"
Luís de Camões





Dias de solitude.




Dias de experimentar o prazer de ficar só, de ter silêncio e tranquilidade, de estar comigo mesma. Dias assim são raros. Tudo é sempre muito tumultuado, muito cheio...

É difícil explicar às pessoas que nos rodeiam que queremos estar sós. Difícil porque muitos assemelham o "estar só" à "estar triste", o que nem sempre é uma relação coerente. Não estou triste, não mais. Como costumam dizer, "passei a peneira", tirei do meu círculo pessoas que só se aproximavam para sugar e tirar de mim a pouca força que tenho. Não sou tão forte como pensam, diria até que sou bem frágil, nem por isso evito enfrentar meus desafios. São muitos, são tantos que só um pouco de silêncio pode me ajudar a compreende-los melhor, por isso é tempo de solitude.

Ainda assim, como explicar que meu recolhimento é voluntário e como convencer às pessoas que se preocupam de que, mais do que nunca, estou feliz?!

Não é preciso explicar.

Quem me vê se surpreende em perceber que estou radiante! Se não consegui estar bem até agora é porque fui teimosa demais à ponto de ficar "dando murro em ponta de faca", insistindo no que não tem jeito. Admitir que há coisas que não são possíveis de serem resolvidas por nossas próprias mãos é fundamental, toda minha teimosia só me garantiu lágrimas e desperdício do meu precioso tempo. Percebi que esse meu apego às relações pessoais as vezes chega ao ponto de me prejudicar. Em nome de uma amizade fui capaz de tolerar coisas inaceitáveis, em nome de um amor, coisas inimagináveis.

Pela primeira vez na vida, fui chamada de egoísta, foi uma brincadeira, mas confesso que gostei. Fiquei feliz! Parecia que de alguma forma eu estava fazendo algo por mim. Só por mim. Aquilo que poderia ser uma crítica, mesmo de brincadeira, pareceu um elogio. É sempre difícil terminar relações, ainda que sejam de amizade, mas quando assumimos as limitações de uma relação e admitimos que estamos construindo "castelos de areia", percebemos o esforço inútil e nos damos conta de que dedicar nosso tempo à nós mesmas é mais gratificante.

Nos últimos dias um sorriso tem feito morada no meu rosto, o que não é nada incomum, meu sorriso é uma característica pessoal bem marcante... por diversas vezes me questionaram sobre a minha expressão, sobre o olhar pensativo e tranquilo somado ao sorriso insistente. Dia desses saía da aula, e vinha caminhando tranquilamente em direção ao ponto de ônibus, quando alguém, que vinha em direção oposta, me observando, perguntou: "Os pensamentos estão bons, não é?"

Estavam sim.

Estou vivendo para mim, pela primeira vez! Isso, além de novo, é assustador... Há momentos que não sei bem como continuar, que me perco, me confundo, me entristeço. Mas a coragem é algo que nunca me faltou. Aprendendo a me amar, descobri que preciso também aprender a me defender, por respeito próprio. Não acredito no amor-próprio de quem não se defende.

Tenho me sentido feliz e cheia de expectativas com minha vida profissional e acadêmica, recebendo o carinho e o respeito de pessoas por quem também tenho carinho e respeito, minha família também está bem e, como um sol que vai nascendo, tenho recebido, diariamente, mimos e afeto de quem sempre esteve em meus sonhos mais distantes.

O quadro é uma obra que pinto de mim mesma: sozinha em casa - na minha casa, andando nua, ouvindo música velha, assistindo filme velho (adoro coisa velha!), escrevendo, lendo, comendo jujuba (o alimento dos Deuses), me divertindo com meu pequeno zoológico, me redescobrindo, me encontrando... Depois, uma taça de vinho, uma fatia de queijo e eu, só eu.

Feliz, enfim.


"Get up, stand up
don't give up the fight!"

Bob Marley





29.7.13

A árvore dos amores


Amora minha,
que de amores vinha,
tão cheia da esperança
de quem nunca desistiu
em provar o teu doce.

Foram tantos os amores
que o machado devastou!
Espera e regenera
que o tempo da colheita
não tarda em chegar...

Resiste e persiste
na insana insistência
de quem teima
[com paciência]
do amor provar.





27.6.13

Descendo a rua






Des
___cen
______do a rua

A moça na calçada

pensa
e ri.

O sorriso dela

revela...
eu vi!





22.6.13

Os lobos uivam... Sedentos.

"Não podem existir os apenas homens,
estranhos à cidade.
Quem verdadeiramente vive
não pode deixar de ser cidadão,
e partidário.
Indiferença é abulia,
parasitismo, covardia,
não é vida.
Por isso odeio os indiferentes.
Vivo, sou militante.
Por isso odeio quem não toma partido,
odeio os indiferentes."

in "Os indiferentes", Antônio Gramsci.


Focada em outras coisas e num momento muito corrido da minha vida vi, apenas de longe, o desenrolar deste movimento que se espalhou pelo país nas últimas semanas. Ausente, fui absorvendo de leve e entendendo aos poucos esse "movimento", confesso que a desconfiança sempre esteve aqui, mas que não dei tanta importância a isto pq sou naturalmente desconfiada.


Fui chamada de conformista por uma menina de 20 anos, nem isso me estimulou. A empolgação não chegou embora soubéssemos que era preciso estar lá, ainda que para, depois, voltar para casa sentindo um peso na alma... Vi companheiras e companheiros se empolgarem, dedicarem-se a mais um movimento que, na minha opinião, não é autêntico. Eu tinha que estar lá...

Caminhei entre Reacionários. Senti-me hostilizada, não pela polícia mas pela alienação verborrágica de muitas pessoas ali presentes, pela fugacidade e oportunismo permeados em cada poro, em cada mente vazia e manipulada, infiltrada entre nós. Defensores da vida e da família se fizeram presentes, com seus ameaçadores cartazes chamando-nos ao arrependimento(?!). Havia muitas pessoas ali realmente querendo algo sério e politizado, querendo contribuir, mas boa parte queriam mesmo uma foto, um registro, outros  tantos queriam um golpe...



Ouvi dizer que acordaram um Gigante e tive muito, muito medo. Quem será esta Besta assustadora que dormia? Sei que não era o povo brasileiro, não somos preguiçosos e inúteis como dizem os poderosos. O povo brasileiro (o que eu conheço) acorda cedo, trabalha muito e, quando tem internet, não tem muito tempo pra rede social.

Não aguento mais movimentos importados...
Vi até uma FEMEN na manifestação, com aquela guirlanda na cabeça e tudo, mas tava vestida. "Primavera Árabe" aqui seria o quê? "Inverno Tropical"? A rede social não vai garantir justiça social, ela é só MAIS UM instrumento na busca pela conscientização da classe trabalhadora. A Revolução NÃO será televisionada.

Chamadas às ruas, com esse nível de despolitização, é irresponsabilidade. Dizer que "o povo brasileiro não quer ser representado" e não propor nada convincente, também é irresponsabilidade.


Os poderosos nunca vão permitir que trabalhadores governem este país. Os ricos nos odeiam, uivam, como lobos famintos, como cães selvagens e querem nosso sangue, querem o vermelho de nossas bandeiras. Sempre foi assim, não vai mudar, quando me perguntam se tenho ódio de classe fico imaginando o que eu faria se um filho estivesse com fome e alguém, propositadamente desperdiçasse comida na minha frente, para me ferir, como fazem os ricos, todos os dias.




Tenho ódio de classe sim e não peço desculpas por isso. Tenho ódio de quem consegue deitar e dormir tranquilo tendo milhões em suas contas bancárias, exigindo de seus empregados jornadas de trabalho extenuantes e pagando salários ridículos, exigindo redução fiscal dos governos para poder "investir" no país, especulando e levando nossas pequenas empresas à falência pelo simples prazer de demonstrar poder. Para mim nunca haverá consenso entre trabalhadores e donos dos meios de produção, eles querem nosso sangue. Eles aproveitam-se da juventude e de sua força revolucionária, manipulam, instigam ao caos, confundem...

Não preciso dizer para ninguém, nem pra esses guris manipulados, o quanto nosso país mudou, não preciso provar nada, está tudo aí, está tudo exposto, só não vê quem não quer, quem se deixa alienar.

Com a Direita Golpista a conversa é outra, a postura é diferenciada, vamos para o enfrentamento: Este país é nosso, das trabalhadoras e trabalhadores que o construíram, com sangue e suor! Podem gritar, uivem se quiserem, do alto de seus edifícios de luxo, pisquem a luz e incentivem o caos, daqui nós ouvimos, estamos nas portarias, nas recepções, nas cozinhas, vemos os ricos todos os dias e não somos bobos, sabemos que estão insatisfeitos com tudo o que conquistamos, sabemos que não suportam que nossos filhos estudem nas mesmas faculdades que os seus, que nós possamos andar pelos mesmos lugares e que em breve, terão que pagar bem caro pelo machismo, pela homofobia e pelo racismo, porque sempre soubemos que pra vcs, nosso defeito não é ser mulher, gay ou preto, é ser pobre. Uivem enquanto podem, lobos assassinos, este povo não se deixará levar pelas astúcias da classe mais ignorante que este país já viu. Vcs só tem dinheiro.


Eu, mulher de partido, fui "aconselhada" a não levar minha bandeira. Sempre tive orgulho da minha bandeira... A MINHA, a que escolhi pra mim, não a que "fabricaram" com ideais do positivismo de Comte. Eu, militante do movimento social, caminhei entre pessoas com cartazes cheios de alienação e fascismo...

Levo comigo, uma bandeira. Vermelha. Ela sempre esteve aqui, nas veias de uma trabalhadora.


Militando desde os 15 anos de idade vi o descaso, a inflação e o desespero do meu pai por não conseguir nos dar o básico, o essencial, mesmo trabalhando tanto! Vi jovens serem chamados às ruas pela grande mídia, pintando seus rostos e gritando "Fora Collor!", para, anos depois, o colocarem de volta nos espaços de poder. Vi a bandeira vermelha do MST se erguer nesse país e com ela crescer a luta por Soberania; categorias de trabalhadoras e trabalhadores, centrais sindicais, como a CUT, erguerem suas bandeiras em Marcha atravessando distancias enormes para levar uma mensagem e fazer o povo conhecer esta Nação; homens e mulheres na busca por construir um país mais justo. Elas e eles erguerem a "Bandeira Vermelha"... A minha tem uma estrela. Eu tenho orgulho dela, pois conheço a história deste país.

Aprendi a fazer política na rua, no dia a dia, com minha mãe, com "a menina da limpeza", com "o moço do mercadinho", com "o homem da feira", com os partidos políticos, com os movimentos sociais que pensam o Brasil à sério... Com aquelas e aqueles que lutam pelo povo, porque são povo.

O que sei sobre o Brasil não foi aprendido na TV e nem no Facebook.

Eu senti, eu vivi.

Sou militante.






"Os cães ladram
mas a caravana não para."
Planet Hemp - 12 Com Dezoito



18.5.13

Os remédios do amor



Sermão do Mandato
Padre Antonio Vieira (1643)

"…sobre as palavras que tomei, tratarei quatro coisas,
e uma só.
Os remédios do amor
e o amor sem remédio…"

Padre Antonio Vieira (1608-1697)



Primeiro Remédio
O Tempo

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.


Segundo Remédio
Ausência

Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra. E o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor. Os filósofos definiram a morte pela ausência: Mors est absentia animae a corpore. Despediram-se com grandes demonstrações de afeto os que muito se amavam, apartaram-se enfim, e, se tomardes logo o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades, que rebentam nos olhos as lágrimas, e que saem da boca alguns suspiros, que são as últimas respirações do amor. Mas, se tomardes depois destes ofícios de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado: tudo esquecimento, tudo frieza. Fez a ausência seu ofício, como a morte: apartou, e depois de apartar, esfriou.


Terceiro Remédio
Ingratidão

Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efetivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.


Quarto Remédio
O melhorar de objeto

Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.


Amor Sem Remédio

Se quando se rendem ao mesmo amor todos os contrários, será justo que lhe resistam os seus, e se na hora em que morre de amor sem remédio o mesmo amante, será bem que lhe faltem os corações daqueles por quem morre? Amemos a quem tanto nos amou, e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que não perseveremos em seu amor.










16.5.13

Genealogia do cansaço




"Silenciar
é similar à simular,
ou seja, calar 
é da mesma natureza 
que fingir."

Waldemar Gabriel


É tarde.

As ruas estão vazias e eu me deixo levar, quem me leva por elas teima em se arrastar num marasmo sem fim. Tudo parece ir muito mais devagar do que deveria, eu me desloco lentamente e a vida (ao menos a minha) parece esperar. É uma espera atenta, olhos bem abertos, cansaço. Uma espera incessante.

A noite tem um clima gostoso, eu diria até agradável. Um vento quase frio me ilude a ponto de fazer acreditar que ainda é possível esperar um pouco mais. Esperar o quê mesmo? Às vezes esqueço até o que estava esperando, faz tanto tempo que estou assim que, dispersa em pensamentos vagos e vãos, apenas sigo viagem: Agora posso dormir, enquanto espero.

Dormir é melhor que esperar, descanso enquanto durmo e canso enquanto espero.

Ainda espero.



São pontos de vista, pontos de fuga. Fugir tem sido a melhor opção diante dessa inevitável necessidade de saber onde se vai parar. Não posso dormir, hoje há um cansaço maior em mim. O tempo inteiro parece que já chegou o fim mas sei que não é... Já sei onde vou parar, sei bem onde quero chegar, ainda sim parece que é o fim.



Na genealogia do Cansaço, sua mãe é a Longa Espera, o Passado a fecundou,  o Trabalho seu irmão e amante, Fome, sua esposa e ao seu redor brincam suas jovens filhas: as Noites de Bar.

Eu me canso e me calo.

Aprender a calar é imprescindível e ao mesmo tempo extremamente difícil. Calar no mais amplo sentido que a palavra possa sugerir. Palavras. O que é mesmo que ela dizem? As palavras não dizem NADA. Sugerem apenas. Sugerir é o máximo que as palavras conseguem.

"Fica atento ao que não digo" é o que nos alerta o p[r]o[f]eta Leminski. Um profeta do absurdo, um clown, o palhaço triste que cala enquanto a plateia ri.

É hora de fechar as cortinas que dão para o picadeiro, o show acabou. É hora de calar e se calar for fingir que não dói mais, que assim seja.