8.11.14

Súplica


Naquele vale de lágrimas,
onde solidão e insulto
são recorrentes respostas
à prudencia e sensatez,
a fraqueza e a loucura
constroem longas teias.

São rainhas, aranhas, abelhas...
Não param,
fiam,
tecem,
trabalham.
Destroem cada vã esperança
numa vida sã.

E eu desço,
esqueço,
peso e padeço.
Peço,
desfaleço e, enfim,

desapareço.

7.11.14

Íntim[a]idade


DETRÁS DA PORTA

"E o que me importa
Se me escondo por detrás dessa porta
Se ao menos incomoda
É pelo qual o modo
Que tenho
Que se mantêm abstêmio
Até a provação que tenho
Tenho pois, para agora e pra
Depois
Eternizar esse leve alento."

João Jales, 07/04/2012


Lealdade,
talvez seja essa verdade
que poucos conhecem,
e outros tantos esquecem.
Certo dia me disseste:
Não se apresse,
e mesmo que confessem,
espreita!

Estás à tua própria direita
e ao redor mantém
quem te quer bem.
A máscara perfeita
é o espelho que oculta.
Assim, criativamente caótica,
tua tempestade renova,
quem parou de sonhar.

Tu, poeta dos bares,
alçará o voo que sonhares.~
Tu, político das ruas,
gritará a dor na carne crua.
Quando os dias forem maus, canta.
Diante do tempo, no entanto, não te cales.



Ao meu amigo Jales,
Paz e Bem.

23.5.14

Uma fome de "não sei o quê".



Eu nem sabia que também poderíamos morrer de tanto querer.
Da primeira vez que a vi, achei que estava com fome. Acertei! Conheço cara-de-fome de longe.

O problema era o tipo de fome que sentia. Tinha fome de tudo e de nada. Queria o Mundo, talvez o Universo, tudo, num instante só. Às vezes só queria, nada especificamente, parecia ser apenas um desejo, uma vontade não sei de quê, que jamais poderia ser satisfeita. Outras vezes queria tudo o que não poderia querer: queria o céu do meio-dia e a lua, cheia, à meia-noite. Queria todos os opostos e contrapostos, queria a dor do prazer a inutilidade do dizer. Queria também não ter que dizer, sentir apenas e, assim, ser atendida. Era seu vício. Difícil.

Nos conhecíamos desde pequenas e já naquela época ela me disse da fome que sentia. Quando bebê, chorava muito e o leite de sua mãe não lhe agradava em nada, diga-se de passagem. Me contou que a pobre mãe, que não sabia o que fazer, jovem que era, chorava também. E, para vocês verem o que é instinto materno, foram as lágrimas da mãe que a alimentaram.

Eu, que sempre fui comilona, nunca a entendi. Confesso que me impacientei algumas vezes quando a vi com tanta fome e sem saber o que queria comer. Na contradição, nos tornamos amigas, confirmando o velho Blake.

Claro que nossa principal diversão era comer. Vez ou outra comíamos bolhas de sabão, não eram lá muito saborosas, mas depois de uma boa refeição voávamos juntas - furta-cores - até que, num estouro voltávamos para casa, correndo e querendo não levar um 'carão' das mães. Comíamos de tudo: sopa, feijão e livros. Lambíamos baterias e sorvetes de chocolate. De tudo o que fazíamos juntas, o que eu mais gostava era de beber água da chuva para, em seguida, mijar rios inteirinhos!

Em compensação, detestávamos dormir, isso tínhamos em comum. Dormir é importante! - advertiam nossas mães. Ela, surpreendentemente mais paciente que eu, me mostrou que poderia ser até divertido, se soubéssemos como fazer, é claro! Morri tantas vezes que desta vez, já nasci com medo da morte e dormir, definitivamente parecia com morrer.

-Não vejo diversão em dormir! - protestei.
-Isso é porque você não prova os sonhos. - respondeu.

Foi assim que aprendi a sonhar. Juntas conversávamos sobre todos os nossos desejos, vontades e quereres, então sonhávamos. Comíamos cada pedacinho solto de sonho com hashis que fizemos da beliche em que dormíamos juntas o sono da tardinha, e assim crescemos saudáveis, de tanto comer sonhos.

Minha família e eu nos mudamos e não a vi por muito tempo, nos correspondíamos apenas e em suas cartas me contava sobre os muitos sabores das cores, em especial do gosto ruim que tem o marrom, parece terra, ela disse. Na verdade não gostava lá de muita coisa, era exigente e queria sabores nunca antes experimentados, coisa difícil de se achar num supermercado.

Da última vez que a vi estava magra, quase esquelética. Fui visitá-la, levei um beijo e um sonho, não um beijo ou um sonho qualquer, mas aqueles que eu sabia que eram seus preferidos, beijinho de coco e sonho recheado com chocolate. Comeu pouco, acho até que apenas os cheirou, mas cheirava com tanta intensidade que as coisas secavam. Tocava com tanto querer, olhava com tanto desejo que se consumia a si mesma de tanto querer aquilo que não tinha.

Morreu, tadinha.

Morreu sem ter o que desejava, incapaz que era de pedir o que queria, ficou faminta, desnutrida. Morreu, enfim.

Depois de morta, pensou "Que alivio! Agora acabou!"

Morta como estava pensou até que aquele gosto de satisfação fosse um devaneio de fantasma, pena que ela nunca acreditou em fantasmas... Então sumiu, conformando-se com o insaciável desejo de "não sei o quê".





25.4.14

Essa moça...


para Érika.



Quando essa moça passa
não tem quem não ache graça.
É uma beleza,
mistura de raça.
Ela encanta, desembaça a vista
e conquista.
Me disseram até que é comunista, feminista, naturista...
Estes outros tantos istas que me
intrigam e comovem.

Ah! Essa moça...
É sempre bom avisar:
bravura é sua especialidade,
Sai da frente!
Quando a fé vem com vontade
a menina cresce,
nada nem ninguém a impede.

Mas como chora a moça!
Por qualquer coisa,
quando triste, alegre ou brava.
Poucas sabem
Mas a moça-coragem é um doce
como doce de batata-doce.

Essa moça não sabe o que faz
faz a gente se sentir mais forte
mas bela
faz pensar e deixar de preguiça
recomeçar,
Essa moça me inspira.

Respira, moça!
Enche de ar os pulmões e fala,
fala o que pensa, o que sente.
Respira!











16.1.14

Rolêzinho Alienado



Detesto Xópim e algumas "Lutas" são, no mínimo, curiosas.

Não é de hoje que a sociedade civil anda questionando as posturas dos Centros Comerciais, conhecidos popularmente aqui na Colônia como "Shoppings". Um centro comercial é um centro comercial e só. Não é uma área de convivência.

Nunca entendi a motivação de algumas pessoas em ir passear no "Xópim", "ver as lojas", etc... As "Praças de Alimentação" destes estabelecimentos parecem verdadeiras cocheiras onde um monte de animais da espécie humana, comem uma comida ruim e artificial como o próprio ambiente, enquanto fazem, em uníssono, um barulho indigesto e ensurdecedor. Toda essa "diversão" acontece depois de longos passeios por infinitos corredores com iluminação artificial, plantas artificias e gente artificial. Quando podem, compram. As compras são, em geral, produtos feitos por escravos cearenses, bolivianos, chineses... produtos que custam R$ 0,89 mas que o consumidor final paga R$ 200,00, porque o adquiriu dentro de um "Xópim", para piorar ainda repetem a clássica frase: "É de marca!". Que bom...

A colônia e os colonizados continuam desejando ser patrão, ser opressor. Continuam achando que "melhorar de vida" é poder passear no Xópim e ter IPhone. Me disseram que "quando a favela descer os poderosos vão tremer", pena é que a alienação é geral. A favela quer mesmo é subir, quer ser igual à elas e eles, esses aí, os que nunca sentiram frio, os que não sabem o que é não ter um pão dentro de casa, os que estão "acostumados com sucrilhos no prato". Não sou dessas. Não sou de Xópim.

Não me envergonho de ser pobre. Cresci no Bairro São José, às margens. Às margens do Rio Jaguaribe, às margens do Xópim, às margens da sociedade... A padaria mais próxima era a das Lojas Americanas, dentro do Xópim. O segurança olhava a menina da favela, de sandália havaiana (no tempo que sandália havaiana era coisa de favelado, hoje é coisa de Xópim), cabelo pixaim e fazia o que mandavam: seguia. Todos os dias. Ele sabia que eu ia comprar pão, mas sempre me seguia, era a norma do Xópim: Seguir os favelados.

Certo dia fui comprar pão no Xópim e vi, no saguão, uma enorme maquete de como ficaria aquele empreendimento depois de uma grande reforma, nem mesmo prestei atenção no prédio da maquete, a única coisa que me chamou a atenção foi que, ao lado da maquete do Manaíra Shopping havia apenas um rio (limpo!) e um vale. O bairro São José, meu lar, não estava na maquete e nunca estaria, nós éramos a sujeira, éramos os indesejados, não fazíamos parte da cidade. Eu era criança e nunca mais entrei no Xópim. Passei mais de 10 anos da minha vida evitando aquele lugar. Evitando aquela humilhação.

Eu não preciso do Xópim, nem pra dar um "Rolezinho". 

Algumas amigas, ávidas por uma oportunidade de emprego, foram até lá, de currículo na mão e coração cheio de esperança pois, como eram vizinhas acreditavam ter mais chance, até porque o empregador economizaria com passagem. Lêdo engano. Eles não contratavam favelados. Mas isso era naquela época! Hoje tem favelado trabalhando no Xópim, "o Sistema dá oportunidade à todas as pessoas", é só querer! Podemos ser faxineiros, cozinheiros e até seguranças! É um privilégio...

Os "lelekes", são pobres como eu e tem, em sua maioria, cabelo pixaim como o meu, e, assim como eu, não tem grana na carteira. Querem dar um Rolêzinho porque as cidades esqueceram deles, fizeram planos e simplesmente os apagaram da paisagem. Eles não estão lá. O Xópim não os quer lá.

Tudo isso é muito previsível o que não é previsível e também é quase intragável é uma sociedade se organizar para debater a liberdade de acesso aos Xópins.

Que se danem os Xópins e seus empresários. Seu lucro e sua exploração. Eu não quero ir ao Xópim porque lá é uma grande senzala onde comerciários trabalham até 12 horas/dia, onde ricos-ladrões vão para esbanjar sua grana e preencher os vazio de suas almas e onde a classe mérdia compra status social parcelado em 12 vezes sem juros.

A colônia Brasil mantém um apartheid obsceno e enrustido, vergonha para qualquer nação, mas confesso que não estou disposta entrar no front de batalha para ter direito à entrada no Xópim. 

Quero ter direito à Praças, Centros Culturais e Esportivos, Teatros, Cinemas e Bibliotecas.

Os Centros Comerciais precisam de regularização, ponto. Não é possível que estes ambientes estejam acima de tudo e de todos e que possam fazer dalí um covil de discriminadores, racistas e homofóbicos. É preciso exigir que estes estabelecimentos tenham responsabilidade social e comprometimento com o bem estar de seus frequentadores, como por exemplo a obrigatoriedade de montar um pronto-socorro para evitar episódios como o do cliente que, vítima de um AVC, foi jogado na calçada do Manaíra Xópim, enquanto esperava o SAMU chegar e morreu.

Quero ser tratada como gente. Gente de verdade, que sente e pensa. Meu valor para o mundo não está no que visto ou consumo mas em minhas atitudes, pensamentos e sentimentos. Sou muito mais do que uma marca. Sou favelada e sei o que é sofrer, sorrir e viver de verdade, não preciso de Xópim.

***
Sinto saudade dos cinemas no Centro da cidade...