28.2.13

Não me mande flores.




Repito: Não me mande flores.



Todas as vezes que recebi flores elas cheiravam à remorso... Havia um cheiro fétido e insalubre de culpa, uma aparência de morte nas rosas vermelhas que deviam estar lindas na floricultura.


A morte de um amor só acontece por conta da falta de flores, sabe essas flores cor-de rosa que se abrem em botões, com pétalas macias e delicadas em cada maçã do rosto quando a gente ri? Sabe aquelas rosas vermelhas de desejo entre nossas pernas que se abrem como labaredas de fogo num incêndio? Sabe o cheiro bom das flores que vem num café-da-manhã levado na cama depois de uma noite dormindo juntinhos? O amor acaba justamente por conta da ausência de flores.


Repito (aos gritos):
Não me mande flores!

Os espinhos de cada rosa morta embaladas num plástico e amarradas com uma fita vermelha me dão a náusea de quem já não mais as suporta.


Nestas novas manhãs colhi flores cultivadas em meu pequeno jardim, são flores do meu amor por mim.




10.2.13

Dignidade, por favor.

"Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas."

Teatro dos Vampiros
Legião Urbana



Tenho boas notícias: Tô trabalhando!
O que ainda me deixa triste é que meus "cúmplices" ainda estão desempregados.
Pode não parecer mas tô muito feliz... é que minha felicidade só fica completa de verdade quando aquelas e aqueles à quem amo também estão felizes...

Vamos às novidades: O trabalho é bom, o salário também, a equipe é divertida e a coordenadora é uma pessoa adorável. Agora posso dizer que tô feliz. Ter dinheiro é bom (claro!), mas o melhor mesmo é estar fazendo algo interessante e, finalmente, sair daquele tédio desorientador que só o desemprego é capaz de criar. Quando se está trabalhando, tem-se aquela sensação de ser útil e também podemos fazer planos perfeitamente realizáveis - o que é uma delícia, diga-se de passagem.

Eu adoro trabalhar, trabalho desde criança e se não fossem por alguns empregos ruins que tive e seus patrões sacanas eu teria passado a melhor parte da minha vida no trabalho. Não acho que trabalhar seja um castigo, como está escrito na Bíblia, acho, pelo contrário, que trabalhar é a mesma coisa que estar vivo, é o trabalho que nos dá a possibilidade de sonhar.


Quando falo sobre trabalho não estou falando exatamente do trabalho remunerado, mas do trabalho como toda intervenção produtiva da pessoa humana - a VEJA não sabe nada sobre pleonasmo. Produzir é importante e, mais que um prazer, é um dever. De que adianta ler um livro e daquela leitura nada ser produzido (nem um comentário de mesa de bar)? Interferir é algo que todas e todos podemos e devemos fazer. Quando converso com minha mãe,  quando lavo a louça na casa de uma amiga, quando coleto o lixo que alguém deixou na praia... Todo trabalho é digno e necessário. Até porque, mesmo que eu não produza, vou, inevitavelmente, continuar consumindo. É natural de um ser vivo, consumir, o que não é natural é consumir demasiadamente como o sistema nos impõe.


O mesmo sistema que nos priva do Trabalho Remunerado, o mesmo sistema que diminui as vagas para que cada um de nós precise se humilhar em troca de um salário, é o Sistema que nos constrange pelo fato de "ainda" estarmos desempregados. Como se a pessoa desempregada escolhesse estar nessa situação, conheço pessoas que se acomodaram realmente e se você, ao invés de julgar, tentar ouvir o que alguns tem à dizer, vai ouvir coisas bem coerentes. O que fazer quando sua família investiu na sua educação, deu à você oportunidades que outras pessoas não tiveram e, mesmo assim, você não consegue nada na sua área?! O que fazer quando a tua idade te impede de ocupar uma vaga na qual você tem décadas de experiência? O que fazer pra conseguir experiência quando você é jovem e tá cheio de curiosidade e energia mas ainda não tem qualificação?

É triste ter que parar de sonhar com coisinhas simples, fáceis de alcançar, só porque se está sem emprego. Fico pensando em como estão outras pessoas, jovens como eu, que estão numa situação de  desemprego ainda pior do que a que eu estava... Eu tinha algumas perspectivas, estava esperando por uma vaga melhor, podia ter ido atrás de qualquer emprego, mas estava esperando o que seria melhor pra mim. Pude escolher. Essa não é a realidade de milhões de pessoas que estão por aí, sentindo-se desamparadas.

Me sinto privilegiada.

Olho para algumas amigas e amigos e vejo a mesma expressão com a qual eu estava há dias atrás. A velha pergunta fica martelando a cabeça: Como pode ser lícito que poucos tenham tanto e tantos tenham tão pouco? Sabe o que querem esses jovens que me cercam? Trabalho. Querem trabalhar duro, querem contribuir, querem sonhar, se divertir, ajudar outras pessoas, querem morar só... querem começar a própria vida.

Mas o sistema não deixa.
E não deixa porque? Fácil.
Não se pode dar à todos o poder de compra, o poder de intervenção... Trabalho é independência, é um pouco de Liberdade. Se aqueles que detêm o poder compartilharem um pouco, uma migalha que seja desse poder... sabem que nada mais será igual, que quem viveu até agora com tão pouco pode fazer Revoluções com um pouco MAIS.

Dignidade é artigo que anda em falta, quem tinha mais moeda levou todas as peças... só não sabiam que este item não está à venda, é brinde. Prêmio dado à quem não se deixar derrotar.

Saudações de uma recém-contratada à todas as desempregadas e desempregados. Um brinde ao empreendedorismo de algumas pessoas, à fé de outras e à coragem daquelas que sobrevivem à toda a cobrança que a sociedade nos faz. As coisas vão melhorar!

À quem sobrevive, um brinde!