18.5.13

Os remédios do amor



Sermão do Mandato
Padre Antonio Vieira (1643)

"…sobre as palavras que tomei, tratarei quatro coisas,
e uma só.
Os remédios do amor
e o amor sem remédio…"

Padre Antonio Vieira (1608-1697)



Primeiro Remédio
O Tempo

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.


Segundo Remédio
Ausência

Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra. E o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor. Os filósofos definiram a morte pela ausência: Mors est absentia animae a corpore. Despediram-se com grandes demonstrações de afeto os que muito se amavam, apartaram-se enfim, e, se tomardes logo o pulso ao mais enternecido, achareis que palpitam no coração as saudades, que rebentam nos olhos as lágrimas, e que saem da boca alguns suspiros, que são as últimas respirações do amor. Mas, se tomardes depois destes ofícios de corpo presente, que achareis? Os olhos enxutos, a boca muda, o coração sossegado: tudo esquecimento, tudo frieza. Fez a ausência seu ofício, como a morte: apartou, e depois de apartar, esfriou.


Terceiro Remédio
Ingratidão

Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efetivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.


Quarto Remédio
O melhorar de objeto

Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas. Em aparecendo o maior e melhor objeto, logo se desamou o menor.


Amor Sem Remédio

Se quando se rendem ao mesmo amor todos os contrários, será justo que lhe resistam os seus, e se na hora em que morre de amor sem remédio o mesmo amante, será bem que lhe faltem os corações daqueles por quem morre? Amemos a quem tanto nos amou, e não haja contrário tão poderoso que nos vença, para que não perseveremos em seu amor.










16.5.13

Genealogia do cansaço




"Silenciar
é similar à simular,
ou seja, calar 
é da mesma natureza 
que fingir."

Waldemar Gabriel


É tarde.

As ruas estão vazias e eu me deixo levar, quem me leva por elas teima em se arrastar num marasmo sem fim. Tudo parece ir muito mais devagar do que deveria, eu me desloco lentamente e a vida (ao menos a minha) parece esperar. É uma espera atenta, olhos bem abertos, cansaço. Uma espera incessante.

A noite tem um clima gostoso, eu diria até agradável. Um vento quase frio me ilude a ponto de fazer acreditar que ainda é possível esperar um pouco mais. Esperar o quê mesmo? Às vezes esqueço até o que estava esperando, faz tanto tempo que estou assim que, dispersa em pensamentos vagos e vãos, apenas sigo viagem: Agora posso dormir, enquanto espero.

Dormir é melhor que esperar, descanso enquanto durmo e canso enquanto espero.

Ainda espero.



São pontos de vista, pontos de fuga. Fugir tem sido a melhor opção diante dessa inevitável necessidade de saber onde se vai parar. Não posso dormir, hoje há um cansaço maior em mim. O tempo inteiro parece que já chegou o fim mas sei que não é... Já sei onde vou parar, sei bem onde quero chegar, ainda sim parece que é o fim.



Na genealogia do Cansaço, sua mãe é a Longa Espera, o Passado a fecundou,  o Trabalho seu irmão e amante, Fome, sua esposa e ao seu redor brincam suas jovens filhas: as Noites de Bar.

Eu me canso e me calo.

Aprender a calar é imprescindível e ao mesmo tempo extremamente difícil. Calar no mais amplo sentido que a palavra possa sugerir. Palavras. O que é mesmo que ela dizem? As palavras não dizem NADA. Sugerem apenas. Sugerir é o máximo que as palavras conseguem.

"Fica atento ao que não digo" é o que nos alerta o p[r]o[f]eta Leminski. Um profeta do absurdo, um clown, o palhaço triste que cala enquanto a plateia ri.

É hora de fechar as cortinas que dão para o picadeiro, o show acabou. É hora de calar e se calar for fingir que não dói mais, que assim seja.