18.2.15

O sangue de nossas mulheres




Hoje somos clandestinas, em breve seremos livres.


"Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada."



***
Até quando? Até quando a iminência de uma paternidade, ou melhor, de uma pensão alimentícia será motivação para um bandido executar friamente sua parceira e seus prováveis filhos?


Digo prováveis pq, ao que nos parece, todas as mulheres que tem clitóris são infiéis em potencial, logo só o exame de DNA nos redime. Louvada seja a Ciência que tira Capitú do exílio!


O Bentinho da vez, não era propriamente um ciumento, mas um assassino, tem 48 anos e matinha relações com Izabella Gianvechio, 22 anos, a jovem o procurou para pedir q ele assumisse a paternidade de seu casal de gêmeos, a linda Ana Flavia e lindo Lucas. A pequena família foi friamente executada e seu executor encontra-se em prisão preventiva. A mãe foi enterrada dia 12/02/2015 e os corpos dos bebês, encontrados ontem, foram enterrados nesta manhã (18/02) em estado de decomposição.


Como paraibana não pude evitar a recordação da triste história da estudante Aryane Thaís, 21 anos, que estava grávida quando foi estrangulada e o seu corpo deixado num matagal em João Pessoa-PB, no dia 15/04/2010, seu Bentinho, um estudante de Direito, o sr. Luiz Paes de Araújo Neto, estrangulou Aryane.


Conheço vários homens, bons homens, trabalhadores que se sacrificam diariamente para garantir o sustento de seus filhos, são heróis de uma sociedade deturpada, silenciosos resistentes de um mundo sem valores. À estes homens antes de tudo meu respeito e admiração, em seguida meu clamor: Companheiros, unam-se à nós. Ergam suas vozes contra a violência que arrasa famílias inteiras, defendam os direitos das mulheres e crianças, sejam a diferença!


Quanto às mulheres... quando penso nestas mães com seus inocentes bebês nos braços já não sei o que dizer. Só me cabe revolta e indignação. Que pensamos nós, mulheres, quando engravidamos? Que loucura nos acomete de acharmos que em nossos ventres cresce um tesouro?! Ao que tudo indica nossa reprodução deve ser permitida e pré-determinada pelo Sistema. Devemos lembrar que nossos filhos não são nossos, não passam de mão de obra para o Mercado e para alguns genitores são só mais uma boca para alimentar, mais uma conta no fim do mês. Percebo que, preferencialmente, deveríamos fazer nossos abortos clandestinamente, sem incomodar os possíveis 'pais' nem tampouco a Sociedade.


O Sistema anseia que morramos em breve. Talvez durante o aborto clandestino ou mesmo antes, ao informar nosso parceiro que, como ele detesta camisinha, logicamente uma gravidez aconteceu. Ao sermos espancadas tentando proteger nossas barrigas ou na sala de parto graças à esse monstro chamado violência obstétrica. Tanto faz, somos apenas números.


O sangue derramado pelas mulheres não entra para a História.


Ao contrário do que o noticiário indica e do que nossa cultura 'permite', nós nos fortalecemos, somos maioria, resistimos. Todo o feminicídio que nos persegue desde a Idade Média cairá, seremos vitoriosas pq já não aceitamos o jugo. 


Nosso 'feminismo' constrói e luta por um mundo em que direitos e deveres não estejam condicionados à buceta ou ao pau, mas à outra parte do corpo, o cérebro. Nossa liberdade é para todas e todos, sonhamos com uma igualdade jamais experimentada e não desistiremos até alcançá-la.


Meu desejo é que Izabella não seja esquecida e que este assassino seja condenado. Pelo fim da impunidade!


***
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1.2.15

Por um fio

Pausa.

Canso,
suspiro,
repouso,
reflito.

Por um fio
sustento um peso
que não posso carregar.

Encanto,
inspiro,
deliro,
perco.

Encontro.
Recomeço o trabalho,
árdua manufatura do espelho.



31.1.15

Tortuosidades


O enfado de poeta
prisioneira de um corpo falido.
Todo tédio da letra errante.
Guerras tantas

travadas na arena da incoerência de amante.
Dias inteiros perdidos
nos afazeres do medo.

Incompletudes várias de quem,
inutilmente, se procura no outro.
Absorto.
Passam ao largo dos caminhos sombreados, veredas.
Parecia fácil?
A fera, aos berros, ruge.
Eu estremeço.

Mereço o canto dos pássaros,
o voo incerto dos insetos,
a tarde nos parques,
onde deságuo o que transborda.

Sou poeta de campos abertos.

Mansa Dor



Ao passo que me canso,
amanso.

Tantas guerras travadas...
Vitórias-régias.

Perdi o tino, 
persisti no insight.
Não há pelo que lutar,
nem mágoa, tampouco desilusão.

Deixemos ao tempo
o fardo de apagar
o que não tem sentido
e só inspira solidão.

15.1.15

Antes das cinco

O silêncio dos corredores é quebrado antes mesmo da chegada do astro-rei, as mãos habilidosas que [pré]param os teimosos corpos contorcendo-se em dores, perturbam a quietude da manhã do novo ano.
Neste ofício do cuidar, o carinho de estranhas conta outra história de amor, revira as entranhas de quem cedeu à convicção de estar só.